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Quem é o chefe, a marca do consumidor agora na Itália. Entenda

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Após a indústria de marca e a marca de distribuidor, finalmente chega a marca do consumidor. “Quem é o chefe?!” no final das contas, se não o próprio consumidor? Porque ele ainda deve se contentar em receber o produto depois da compra, sem participar das escolhas de produção? Em 2019, na Itália, chega a revolução. Entenda a seguir:

A marca do consumidor “Quem é o chefe?!”. A estreia na França

C’est qui le patron?!La marque du consommateur estreou na França em 2016. A iniciativa do movimento de consumidores surgiu da exigência de decidir quais produtos colocar nas prateleiras dos supermercados. Com a ideia promovida por Nicolas Chabanne, que recebeu a aprovação dos consum-Atores franceses, de considerar as mercadorias em seu valor mais autêntico.

A relação qualidade preço, a base do sucesso do private label (ou marca do distribuidor), é apenas um dos muitos aspectos considerados. O valor de uma mercadoria é bem mais amplo e é avaliado a partir da produção agrícola primária. Os critérios que guiam as escolhas de fornecimento da marque du consommateur são, portanto, os seguintes:

sustentabilidade socioambiental de toda a cadeia, com um prêmio para conversão orgânica,

bem-estar animal e qualidade do alimentoconsumido pelos animais,

compensação justa aos produtores, na agricultura e na transformação,

origem da matéria-prima e local de produção das mercadorias,

perfil nutricional dos alimentos ultaprocessados.

A marcha dos 10 mil (número de sócios do movimento C’est qui le patron?!), em apenas dois anos, inspirou as escolhas cotidianas de compra de mais de 6 milhões de consumidores em 12 mil pontos de venda na França. Mais de 85 milhões de litros de leite justamente remunerados aos criadores virtuosos.

A marca dos consumidores “Quem é o chefe?!”, entenda

A marca dos consumidores, “Quem é o chefe?!” foi criada pela associação homônima da qual participam, entre outros, GIFT (Great Italian Food Trade) e FARE (www.foodagriculturerequirements.com). Uma organização sem fins lucrativos que visa afirmar o poder de decisão dos consum-Atores e o valor crucial da integridade da cadeia, ou seja, da ética.

A integração da cadeia acontece segundo o seguinte mecanismo:

A) Os consum-Atores são envolvidos principalmente por questionários e outros métodos de pesquisa que garantem a independência dos dados coletados para avaliar a percepção qualitativa dos valores expressos por cada cadeia alimentar. É sobre a base destes dados, compartilhados com transparência, que a associação projeta cada produto.

B) Os produtores selecionados (e/ou suas organizações) que aderem aos valores expressos se empenham para produzir produtos seguindo os critérios definidos pela associação em regulamentos específicos. Garantindo também a rastreabilidade de toda a cadeia, “from farm to fork”.

C) Os operadores da distribuição (moderna e tradicional) são livres para decidir se comprarão e distribuirão os produtos com a marca do consumidor. Respeitando as práticas comerciais justas, sem exclusividade e favoritismo. A associação contribui com a promoção dos produtos mediante uma comunicação de base “de baixo para cima”, na internet. Promove-se a manutenção dos preços de venda recomendados sem penalizar nenhum dos protagonistas da cadeia.

A marca dos consumidores, exemplos e perspectivas

O leite da marca do consumidor, para citar um bom exemplo francês, precisa ter origem rigorosamente francesa, provir de vacas criadas com pasto por pelo menos 6 meses ao ano e nutridas com forragens naturais não OGM, produzidas em um raio de 70 km. O leite UHT da marca ‘C’est qui le patron?!’ custa, portanto, 0,99€/l, contra uma média de 0,67. E o valor entregue aos criadores que investem na qualidade solicitada também é superior (+ 0,20€/l).

Os produtos ‘Chi è il padrone?!’ da França são, atualmente, cerca de vinte, a partir de alimentos essenciais como o leite e laticínios, ovos, mel, massas, conservas vegetais, chocolate, etc. A manteiga venceu o prêmio “inovação” em 2018. Graças, também, ao suporte oferecido para a conversão para agricultura orgânica, é premiada com 0,15€ a mais por unidade vendida, adicionados ao “preço justo” para o produtor. O mesmo ocorreu com o mel, +0,15€ por vidro devido à proteção das colmeias e seus habitat.

E é só o começo, pois os consumidores pressionam. A gama de produtos no território está destinada a ser ampliada, com a gradualidade necessária para acompanhar o desenvolvimento de produtos bons e justos, em conexão com a cadeia agrícola e de transformação.  “C’est qui le patron?! A marca do consumidor” já conquistou o 22º lugar entre as marcas francesas, com um índice de penetração no mercado de 14%.

O movimento vem se firmando em vários países da Europa (Espanha, Bélgica, Grécia, e Alemanha. Além da França e Itália) e além (Marrocos e EUA). A perspectiva, portanto, é de valorização do “Made in” — como preferirem os consumidores de cada país — no mercado internacional. A revolução chegou e todos faremos parte dela.

Dario Dongo

Notas

  • Sem omitir a devida consideração de práticas comerciais desleais, que devem ser rigorosamente eliminadas de qualquer relacionamento em toda a cadeia.

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